domingo, 16 de maio de 2010

Agora

Agora que contemplo o cadáver da nossa amizade vejo a mentira que fomos. O cheiro do corpo inanimado, nefasto e pútrido, lembra-me a falsidade do passado. Os seus olhos gaseados estão vidrados nos meus, pedem me empatia, pena... Quantas vezes não lhos dei? Quantas vezes não fui eu uma marioneta controlada pelos fios lacrimosos daquele olhar hipócrita? Quantas vezes acreditei que eles reflectiam a necessidade da tua alma de ser amada, querida?
Agora sei que reflectem, tal como um espelho, a tua alma. Espelho distorcido numa qualquer feira de ilusões num local distante e só. Novamente o perfume da escória humana atormenta os meus sentidos. Náuseas, vómitos, o meu corpo fraqueja face à putridão que o assola.
Agora que te enterro sob o solo que todos pisamos, submissa aos nossos pés, sei que estou livre. O teu olhar nunca mais me prenderá. A jaula do teu coração ficará vazia. Observo do topo da vala o cadáver contaminado pelo ódio e pela ira, pela tristeza e pela melancolia de todos aqueles que o satânico corpo tocou e que agora o consomem até desaparecer na sombra e na escuridão da dor que trouxe ao mundo.
Agora que jaz morto, quieto, calado mas jamais em paz vejo que os erros do passado do nefasto ser serão pagos com peso dos magoados e dos feridos sobre ele.

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